segunda-feira, 20 de junho de 2011

Ultimatum

(Álvaro de Campos, em 1917)

"Mandato de despejo aos mandarins do mundo
Fora tu,
 reles
 esnobe
 plebeu
 E fora tu, imperialista das sucatas
 Charlatão da sinceridade
 e tu, da juba socialista, e tu, qualquer outro
 Ultimatum a todos eles
 E a todos que sejam como eles
 Todos!
Monte de tijolos com pretensões a casa
 Inútil luxo, megalomania triunfante
 E tu, Brasil, blague de Pedro Álvares Cabral
 Que nem te queria descobrir
Ultimatum a vós que confundis o humano com o popular
 Que confundis tudo
 Vós, anarquistas deveras sinceros
 Socialistas a invocar a sua qualidade de trabalhadores
 Para quererem deixar de trabalhar
 Sim, todos vós que representais o mundo
 Homens altos
 Passai por baixo do meu desprezo
 Passai aristocratas de tanga de ouro
 Passai Frouxos
 Passai radicais do pouco
 Quem acredita neles?
 Mandem tudo isso para casa
 Descascar batatas simbólicas
Fechem-me tudo isso a chave
 E deitem a chave fora
 Sufoco de ter só isso a minha volta
 Deixem-me respirar
 Abram todas as janelas
 Abram mais janelas
 Do que todas as janelas que há no mundo
Nenhuma idéia grande
 Nenhuma corrente política
 Que soe a uma idéia grão
 E o mundo quer a inteligência nova
 A sensibilidade nova
O mundo tem sede de que se crie
 Porque aí está apodrecer a vida
 Quando muito é estrume para o futuro
 O que aí está não pode durar
 Porque não é nada
Eu da raça dos navegadores
 Afirmo que não pode durar
 Eu da raça dos descobridores
 Desprezo o que seja menos
 Que descobrir um novo mundo
Proclamo isso bem alto
 Braços erguidos
 Fitando o Atlântico
E saudando abstratamente o infinito."

domingo, 17 de abril de 2011

No sétimo dia da semana, posterior à sexta-feira e anterior ao domingo, há noites que são eternas. Sim, a chamarei de : A noite que não passou. Começou pela manhã e não teve fim; as horas gritavam no relógio: É dia, É dia! Mas ali ainda era noite, consumindo as faces e rendendo prosas, músicas, risos pelo ar de uma noite sem fim. De repente sol, passarinhos cantando; mas não adianta fazer cara de domingo de manhã, pois a noite ainda transparece nos olhos com brilhos de estrelas. O ar da noite que não quer acabar, memoria que não se apaga e que pesa na face noturna. Os olhos piscaram? O sol já queimava a pele! E as ondas do mar era uma fria realidade que batia nos pés, molhava o vestido e te fazia sentir viva. O coração batia como a água fria nos pés, mas era cheio de vida e areia; sem contar que ainda era noite naquele universo cercado de luz. E tinham estrelas nos olhos...

 
 
Os Novos Baianos
Swing de Campo Grande

Minha carne é de carnaval
O meu coração é igual
Minha carne é de carnaval
O meu coração é igual
Minha carne é de carnaval
O meu coração é igual

Aqueles que têm uma seta
e quatro letras de amor
por isso onde quer que
eu ande em qualquer pedaço
eu faço
um campo grande
um campo grande
um campo grande

Eu não marco toca
eu viro toca
eu viro moita

quinta-feira, 7 de abril de 2011

O céu... as cores do final de tarde, suas nuvens formando um desenho abstrato, quanta beleza. Lá no alto, a lâmpada do poste tentando se disfarçar de lua, efeito de um rápido olhar; ela sorri e pensa: o poste queria ser lua cheia. As horas não passam, nem o ônibus. Só as rodas correndo sem parar, como pernas que percorrem longas distâncias pelas ruas da cidade, gente que só quer chegar. Tudo se traduz em urbis, formando seus retratos de concreto- mas ainda há aquela bela árvore que enfeita o ponto de ônibus do caminho. A vontade dela era pegar o ônibus naquele ponto, para ter o prazer de ficar debaixo daquela árvore, a qual, ela queria muito saber o nome, pegar uma flor e cheirar, pois acha que é Jasmim. Mas se alegra ao lembrar do cheiro da jasmim e guardar suas cores de passagem na memoria. Chega o tão demorado transporte e com ele o cheiro que anuncia a chuva; o cheiro que anuncia a chuva na urbis é confuso, quer ser terra molhada, mas é asfalto. A chuva, são pingos na janela fechada. O resto é a suruba dos corredores apertados, suor, esfrega-esfrega; a carga sexual de um ônibus lotado. E a suruba dos carros parados no engarrafamento. Mas hoje ela foi sentada, estava feliz, a posição no ônibus nesses horários muda tudo, as longas horas dentro dele passam de tortura para exercício de altruísmo; dá até para voar, ir do mar até as questões humanas... masss...
- A melhor conclusão é chegar em casa!